sábado, 6 de junho de 2009

. Considerações sobre o cofre - Aurora dos Campos



por Aurora dos Campos, cenógrafa da peça

o cofre
a questão do cofre
o peso do cofre
a porra do cofre
fiquei com vontade de escrever para Bachelard dizendo que a questão do cofre vai muito além do potencial do que ele tem dentro de si.
ele em si já nos pesou tanto que quase causou uma hérnia sem nem mesmo ser movido.
qual será a resolução do cofre?
ter ou não ter? eis a questão.
qual é o peso real do cofre?
para quem não sabe, ele é laranja, tem 1 metro de altura, está no canto de um quarto com piso de tacos, num terceiro andar de copacabana.
falando assim ele até parece ser bonzinho, mas o cofre não é bonzinho.
ele se encaixa na categoria das coisas especiais, que precisa de carregadores especiais, assim como o piano.
agora ele voltou a ser simpático, depois de saber que está na categoria de coisas especiais junto ao piano.
já o imaginei em vários cantos dessa sala, a multiuso.
já o vi parado, quieto, emanando um certo poder.
já o vi com várias pessoas em volta.
já o vi arranhando o chão de madeira.
já o vi numa espécie de patinete com rodinhas,
mas tem cabimento um cofre sobre rodinhas?
não, isso realmente eu não posso fazer com o cofre.
toda a majestade do cofre cairia no ridículo.
será que os Super Brasovs poderiam atravessar copacabana com o cofre no ombro?
será que o Super Café seria amigo do cofre?

carta ao cofre:

Querido Cofre,
escrevo para agradecer por você ter surgido na minha vida.
Apesar do trabalho que você me deu essa semana foi muito bom te conhecer.
Respeito ainda mais Vossa imponência, digo isso num tom de brincadeira mas é profundo o meu sentimento.
Escrevo num tom de despedida mas está difícil desapegar de você.
Passamos a semana falando sobre você.
Vou pensar numa maneira de te incluir na peça.
A verdade é que você já faz parte e mesmo que não possa comparecer fisicamente estará sempre nos nossos corações (nossa como estou sentimental).
Acho que isso é mesmo uma despedida.
Amanhã ainda vou ver quanto os carregadores especiais cobram para te remover (eles usam o termo remover).
Mas acredito que você não será removido.
Continuará ai no seu canto, estático e imponente como um cofre deve ser.
Agradeço também ao Eduardo, o novo dono do espaço onde você vive que iria nos ceder você gentilmente.
Escrevo também em nome da equipe do Ele precisa começar.
Deixaremos convites para a estréia, procure por Cofre + 1.
Obrigada,
Aurora dos Campos.

. Ele precisa começar

www.eleprecisacomecar.blogspot.com

. Quartos de Tennessee

em breve

. Quartos de Tennessee

em breve

. Quartos de Tennessee - Bárbara Heliodora

em breve

. Contando Machado de Assis - Bárbara Heliodora

*clique na imagem
(crítica publicada em O globo em 11 de setembro de 2008)

. Contando Machado de Assis - Lionel Fischer

Emocionado tributo a um gênio

Lionel Fischer

Por muitos considerado o maior crítico literário da atualidade, o norte-americano Harold Bloom publicou, em 2002, um livro chamado "Gênio - os 100 autores mais criativos da história da literatura". E lá estava o nosso escritor maior, Machado de Assis (1839-1908), a quem Blomm dedica oito páginas de análise. Nada mais merecido, levando-se em conta a genialidade do "bruxo do Cosme Velho", tanto em seus romances quanto nos contos, ambos os gêneros repletos de obras-primas. Em vista disso, julgamos mais do que oportuna a presente empreitada.

Tendo como referências os contos "Missa do galo" e "Mariana", assim como fragmentos do romance "Dom Casmurro", "Contando Machado de Assis" é o atual cartaz do Centro Cultural Justiça Federal. José Mauro Brant e Antonio Gilberto assinam o roteiro, cabendo ao primeiro a atuação e ao segundo a direção do espetáculo.

Como se trata de obras muito conhecidas, não julgamos necessário resumir seus enredos. Mas torna-se imperioso destacar a forma encontrada pela dupla para contar as histórias selecionadas. E esta é aparentemente muito simples, ainda que tal simplicidade traga embutida dificuldades nada desprezíveis.

Em primeiro lugar, vemos em cena o próprio Machado de Assis, na pele do narrador - sem que isto implique em um figurino especial. Ao mesmo tempo, seus personagens ganham vida, dialogam, vivem intensamente as tramas, sempre como que "guiados" pelo autor. E o resultado é absolutamente encantador.

Vivendo o autor e todos os personagens, José Mauro Brant reafirma não apenas seu talento como ator, mas também como contador de histórias. E é realmente fascinante ver como o intérprete consegue, valendo-se apenas de variações indispensáveis, definir as múltiplas personalidades e os diferenciados climas emocionais em jogo. Um trabalho realmente notável, um dos melhores da atual temporada.

Quanto à direção, Antonio Gilberto impõe à cena uma dinâmica em total sintonia com as obras escolhidas, sem arroubos desnecessários ou marcas mirabolantes. Tudo acontece em um clima impregnado de delicadeza e elegância, pleno de emoção e poesia, e tais predicados tornam obrigatória uma visita ao Centro Cultural Justiça Federal.

No que diz respeito à equipe técnica, o trabalho de todos os profissionais envolvidos evidencia a mesma elegância, delicadeza, emoção e poesia acima mencionadas. Assim, só nos resta parabenizar, com igual entusiasmo, a cenografia de Aurora dos Campos, os figurinos de Ney Madeira, a iluminação de Tomás Ribas e a trilha sonora de Marcos Ribas de Faria.

. A forma das coisas - Alexandre Pontara

texto do aclamado e controverso diretor Neil Labute, inédito no Brasil, propõe reflexão sobre os experimentos da arte e sua influência no cotidiano.

(foto ensaio) 

Até onde estamos dispostos a ir por uma crença? Quais os limites que somos capazes de ultrapassar em nome do amor e de uma idéia? Que verdades omitimos dos outros e de nós mesmos para justificar nossos desejos? 

O espetáculo “A Forma das Coisas”, do dramaturgo e diretor americano Neil Labute (autor do bem sucedido “Baque”, encenado em 2005 no Brasil), e tradução de Marcos Ribas de Faria, em cartaz no Espaço SESC-Copacabana, traz à luz algumas respostas a respeito da interferência da arte no cotidiano e quais os efeitos transformadores que acarretam na vida de quatro jovens estudantes de uma universidade norte-americana. O texto se propõe a um exame das relações de amor, amizade, cumplicidade e os conflitos gerados a partir destes relacionamentos. 

Evelyn (Carol Portes) e Adam (Pedro Osório) são completamente diferentes. Ela é uma bela e arrojada estudante de Artes, prestes a concluir seu mestrado. Ele, um sujeito tímido e introspectivo, que trabalha como guarda do Museu da Universidade. O que a princípio poderia sugerir apenas uma comédia sessão da tarde, nas mãos de Neil Labute tem um certo sabor de provocação. A adaptação e montagem idealizada e dirigida por Guilherme Leme com co-direção de Pedro Neschling está impecável. Doses certas de humor e boas sacadas de interpretação dão o tempero que garante momentos de diversão durante o espetáculo. 

Os quatro atores que dividem o espetáculo parecem ter entendido a essência do trabalho de Labute e dão a tônica certa ao quarteto de amigos. Carol Portes está bem segura no papel de Evelyn, demonstrando coerência e talento na construção de seu personagem, garantindo os melhores momentos do espetáculo. Pedro Osório, indicado ao Prêmio Shell em 2001 por Trainspotting, em ótima atuação, consegue criar um Adam leve e tímido, transpondo para o palco a insegurança e os conflitos presentes na personalidade do personagem. A Diana, de Karla Dalvi, tem a carga dramática e a leveza necessária para fazer o contraponto com a personalidade da Evelyn defendida por Carol Portes. O explosivo Johnny, bem defendido por André Cursino, completa o quadro de atores. 

O ponto forte do espetáculo está na direção e concepção de Guilherme Leme que consegue construir um espetáculo com as cores certas de Labute. O espaço cênico é uma atração à parte e o cenário de Aurora dos Campos participa da construção da trama, se adequando e se transformando conforme o próprio Adam se transforma. A iluminação do grande Maneco Quinderé e a trilha sonora de Marcello H completam o trabalho do diretor, garantindo um espetáculo rico em conceito e plasticidade. 

Mais do que apenas discutir a arte, “A Forma das Coisas” propõe uma discussão sobre os limites da interferência do artista na vida das pessoas, o resto não se pode contar, correndo-se o risco de estragar a grande surpresa que o final do espetáculo trará.

(Coluna de Alexandre Pontara publicada na Seção Teatro (Rio de Janeiro) do Guia da Semana em 13/06/2008.)

. A forma das coisas - matéria Neil Labute

em breve

. A forma das coisas - matéria Aurora dos Campos

* clique na imagem
(matéria publicada em O globo, 14 de junho de 2008)

terça-feira, 2 de junho de 2009

. A forma das coisas - Jefferson Lessa

*clique na imagem

. A forma das coisas - Tania Brandão

*clique na imagem

. A forma das coisas - Barbara Heliodora

A forma das coisas - Macksen Luiz

"A arte do criador que supera a vida da criatura"

Não por acaso, Neil Labute é roteirista e diretor de cinema. Sua dramaturgia, em especial A forma das coisas, com cenas curtas e cortes abruptos, encontra semelhanças narrativas com a linguagem cinematográfica nesta versão perversa de um Pigmaleão jovem. Neste caso, uma universitária que empreende, em nome da construção de realidade artística, a manipulação de sentimentos daquele que se tornará a consubstanciação de sua obra. Ao esculpir o outro, transforma seu ato em performance do processo de criação, cinzelando formas exploratórias de seu objeto de investigação como definitiva meta que se justifica por si mesma. Sem brechas, apenas com um sussurro ironicamente alentador no fim, nada detém a criadora que deseja provar, com sua escultura pulsante, que a arte ultrapassa a vida da criatura, depositária de emoções amoldáveis, material passível de ser considerado arte, apesar da cruel arquitetura dos seus meios, ou exatamente por usar tal método para existir como obra.

Neil Labute flagra esse microcosmo de uso mútuo. A seqüência de quadros, que evoluem como projeções de imagens editadas com economia de recursos e diálogos que reproduzem a linguagem direta de um roteiro de cinema, reforça a ligação do autor com a tela. Essa proximidade facilita o ritmo da narrativa, que corre com dinâmica seca, mas internamente tensa, e que, em diversos momentos, parece conduzir o espectador por pistas enganosas.

Guilherme Leme foi sensível ao mecanismo desse encaixe, desenhando a montagem seguindo as regras do jogo do autor. O diretor reforça os traços da escrita, deixando-os evidentes, como reflexos da manipulação da personagem, enquadrando a cena com "secura".

A tradução fluente de Marcos Ribas de Faria e o cenário de Aurora dos Campos colaboram para a "limpeza" da encenação. A cenografia, que usa elementos geométricos, que se tornam esculturas, camas, sofás, e que acumula objetos a cada quadro, compondo a instalação do fim, é inventiva na simplicidade. A iluminação refinada de Maneco Quinderé e os figurinos de Sonia Soares e Tatiana Brescia, que vestem adequadamente o elenco, completam com a trilha de Marcello H. o bom acabamento da montagem.

O elenco tem interpretações cuidadosas, em sintonia fina com o despojamento geral, marcadas por movimentos interiores e contenção externa. Karla Dalvi não caracteriza demais a loura, mais ou menos certinha, que descobre o papel de coadjuvante desempenhado no jogo. André Cursino transmite tanto a ambigüidade quanto a rudeza do amigo cheio de arestas. Carol Portes segura com firmeza a artista manipuladora. Pedro Osório se destaca como o tímido que é submetido ao projeto da namorada, com atuação inteligente e requintada.

(crítica publicada no Jornal do Brasil em 08 de junho de 2008)

. A forma das coisas - Lionel Fischer

*clique na imagem

(crítica publicada no jornal Tribuna da Imprensa em 19 de junho de 2008)


www.lionel-fischer.blogspot.com