quarta-feira, 21 de julho de 2010

. Louise Valentina - Humberto Giancristofaro


A sobrevivência do tempo

Crítica da peça Louise Valentina

Atrizes: Rosanne Mulholland e Simone Spoladore. Foto: Hannah Jatobá
Questões formais
Na peça Louise Valentina, o diretor Felipe Vidal usa recursos cinematográficos que sugerem uma percepção diferenciada do espaço cênico. Ele acrescenta uma profundidade de campo ao palco ao projetar quatro sequências de curtas-metragem dirigidos por Marcela Lordy. A profundidade de campo foi uma técnica inovadora de filmagem que surgiu no cinema da década de 40; ela permite que o espectador de cinema veja um só plano que põe em relação o plano de fundo com o primeiro plano, passando por todos os três tipos de plano: geral, médio e close. Este procedimento foi desenvolvido por Orson Welles que, ao por a câmera em um ângulo diagonal preciso, conseguia atravessar todos esses níveis e mantê-los em foco. Foi bem explorado por ele no filme Cidadão Kane para acrescentar diferentes níveis de situação e de tempo em uma única imagem. Esta alteração na forma de se filmar não se propõe mais a dar conta da espacialidade em sua totalidade, mas sim de permitir explorar de forma contínua cada região do passado, unindo o próximo ao longínquo, para assim dar conta do tempo em sua totalidade. Felipe Vidal usa, no fundo do palco, uma tela para criar um duplo da caixa preta, como um universo paralelo, onde as ações podem ser alçadas para outros níveis de percepção. Ele manteve em foco tanto o palco como a tela. São níveis de planos que se conjugam para criar as cenas interpretadas por Simone Spoladore. Nessa profundidade de campo teatral é que será construída a biografia de um personagem. Dentro desse espectro ampliado, tempos diferentes se conjugam na trama de Louise Valentina. Nesta profundidade de campo são colocadas não só imagens, mas lembranças, de onde surge uma percepção específica da ordem do tempo: uma percepção dividida em dois cronosignos. Essa foi a idéia do filósofo Henri Bergson no capítulo III – da sobrevivência das imagens, no livro Matéria e Memória, para diferenciar os lençóis do passado das pontas de presente, isto é, “a distinção entre coexistência virtual dos lençóis de passado e as pontas de presente como estados mais contraídos de toda a memória” (LA SALVIA, 2006: 58). Estes lençóis se referem aos antigos presentes que são trazidos à tona. Essas referências podem vir de diversos pontos de vista e originar lençóis de passado coexistentes, articulados através da dramaturgia. Gilles Deleuze é quem melhor esclarece essa dinâmica:
“O passado não se confunde com a existência mental das imagens-lembrança que o atualizam em nós. É no tempo que ele se conserva: é o elemento virtual em que penetramos para procurar a “lembrança pura” que vai se atualizar em uma “imagem-lembrança”. E esta não teria sinal algum do passado, se não fosse no passado que tivéssemos ido procurar seu germe (…). Desse ponto de vista, o próprio presente não existe a não ser como um passado infinitamente contraído que se constitui na ponta extrema do já-aí. O presente não passaria sem essa condição. Não passaria se não fosse o grau mais contraído do passado. Com efeito, é digno de nota que o sucessivo não seja o passado, mas o presente que passa. O passado, ao contrário, se manifesta como a co-existência de círculos mais ou menos dilatados, mais ou menos contraídos, cada um dos quais contém tudo ao mesmo tempo, e sendo o presente o limite extremo (o menor circuito que contém todo o passado). Entre o passado como pré-existência em geral e o presente como passado infinitamente contraído há, pois, todos os círculos do passado que constituem outras tantas regiões, jazidas, lençóis estirados ou retraídos: cada região com seus caracteres próprios, seus “tons”, “aspectos”, “singularidades”, “pontos brilhantes”, “dominantes”. Conforme a natureza da lembrança que procuramos, devemos saltar para este ou aquele círculo” (DELEUZE, 1990: 121).
É com base nos lençóis do passado que os personagens de Louise Valentina evocam as imagens-lembrança para reconstruir os antigos presentes no presente atual. Este fato é crucial para chegarmos ao tempo puro e, compreender que o presente é uma coexistência desses passados; consequentemente apresenta todo o tempo no mesmo momento. Daí a pergunta “quem é Louise/Valentina?” estar presente em cada passado e ser o futuro, tudo ao mesmo tempo em cada cena.
Esta temporalidade alcançada se encontra em estado de crise permanente, ou seja, o presente é uma onda no tempo. Como consequência, os lençóis do passado continuam ali, mas não são evocáveis, o passado surge em si mesmo, autônomo, ele está junto com o presente na composição do personagem, num estado do tempo ainda mais fundamental. Contudo Gilles Deleuze já fez a pergunta “como tornar inevocável seu próprio passado?” (DELEUZE, 1990: 139). É preciso trazer todo o tempo para o agora, para a cena – com isso a narração deixa de ser o primeiro elemento da peça. As cenas valem por si mesmas como a apresentação de um tempo ilimitado, como uma pré-história, não no sentido cronológico, mas uma profundidade de campo, onde todos os tempos se tocam.
Questões de conteúdo
Logo no início da peça, a relação entre esses planos começa a se estabelecer: deitada, prensada de encontro a uma parede de vidro debaixo de sua cama, Simone Spoladore situa os limites que o seu corpo pode usar para se expandir entre largura e comprimento; suas costas coladas ao vidro delineiam uma similaridade com o perfil da personagem dos quadrinhos Valentina. Ela liga seu corpo à extensão do corpo de Valentina. Esta relação entre as dimensões alcançáveis projetam Simone de um plano a outro, do palco ao papel e à tela, ampliando as possibilidades de mundos presentes. Os filmes prolongam as cenas para uma dimensão além do espaço cênico, se assemelham a sonhos da personagem em cena. É nesse intercâmbio abstrato e volúvel que o diretor cria a biografia de uma nova vida sobre uma nova personagem híbrida de ícones.
O cinema clássico é um cinema de ação, que expõe, apresenta situações sensório-motoras: imagens agem e reagem umas sobre as outras, criando um encadeamento, uma sucessão lógica entre a percepção e a ação. O esquema sensório-motor é uma relação entre a percepção das ações e as suas afecções, o que forma, no cinema clássico, uma unidade das imagens, uma unidade organizada. Os pequenos filmes projetados na peça partem do universo de um clássico como A Caixa de Pandora para aos poucos compor a sensação de um espaço descontínuo. As imagens, criadas pela junção dos filmes e do que está em cena, aparecem desconectadas, libertando os sentidos da motricidade. Livre de cronologias, a peça pode apresentar “tempos simultâneos”. Nela, o passado e o presente coexistem, são contemporâneos na própria cena. As personagens – seja Louise ou Valentina – não respondem com ações, e sim com contemplação, são personagens que procuram enxergar a situação mais do que reagir a ela. É com esse olhar que Valentina se inspira e assume para si o personagem Lulu de Louise Brooks; na mesma proporção, Louise, ao se ver como fonte de inspiração de uma nova personagem de quadrinhos, traz à tona suas memórias, atualizando o seu passado.
A peça joga com a potência dessas lembranças e se aventura numa busca da identidade e da origem de uma memória. A resposta alcançada não é o mais importante, é essa reflexão sobre como se constrói a personagem que é o intrigante. Talvez Valentina tenha “atualizado” Louise, como sugere a voz em off de um dos filmes: “Quem será Valentina? Será Louise Brooks perdida?”. Nessa peça as lembranças das duas se encontram. A impressão é de que elas sempre coexistiram.
Os sonhos de Louise, que por vezes se materializam em imagens na tela, criam uma identidade particular. No primeiro filme, a menina de sonhos leves e dançantes precisa coexistir com a saliente Lulu. Cada cena passa mais depressa que a anterior e evoca mais intensidade. Louise, como todos nós, tem que lidar com as múltiplas intensidades dos diferentes momentos da vida. Ela cresce, amadurece e conjuga. A peça instiga a reflexão sobre a nossa relação com o tempo. Louise se mostra uma mulher que não quer ser presa à cadeia sucessiva de eventualidades numa velocidade padrão – a velocidade da caixinha de dança mostrada na projeção –, mas ela descobre que a velocidade é a efemeridade dos movimentos, essa é sua chave para entrar e sair de seu tempo: ela passa a se movimentar como bem entende. Louise pode dançar seu próprio tempo. E dança. Vemos na tela a dança em rewind de Lulu que o editor se diverte em montar de forma circular para que dê a impressão de que ela está dançando freneticamente – talvez no filme original não passe de uma única pirueta. É assim que Louise constrói suas lembranças durante a peça: editando, prolongando, colando suas memórias com as de Valentina.
Valentina viu na sua adolescência um filme de Louise e decidiu que imitaria Lulu, cortou o cabelo e foi viver livre e feliz. Estes foram os sonhos de uma personagem de quadrinho. Simone Spoladore dá continuidade à sua Louise, aposentada das telas, na figura da Valentina. A porta na parede leva Louise para detrás das telas (literalmente) e por um efeito de luz e sombra – que também são princípios do cinema – ela atravessa para o plano dos quadrinhos, pois as sombras não têm profundidade e sua silhueta é alocada dentro de quadros. Com seu ritual de beleza, banho, maquiagem e poses, a musa se renova. Essa nova Lulu vive os seus sonhos. O segundo filme retrata todas as suas facetas: musa de cinema, mãe zelosa, mulher de sonhos, escritora, exibicionista, fotógrafa, surrealista e/ou revolucionária. Valentina é todas essas mulheres e não sofre o drama por ser diferente a cada instante. O terceiro filme projetado traz Valentina descoberta. Ela vive suas instáveis intensidades; quando uma quebra, ela constrói outra com os cacos da anterior. É o devir fetiche – construir um mundo com um recorte –, mas ela também se deixa recortar e ser caco das suas outras personalidades. Ela nos mostra a inquietante realidade em que estamos todos misturados, na qual nunca somos apenas uma pessoa, nem somos sempre nós mesmos.

Atriz: Simone Spoladore. Foto: Hannah Jatobá.
Referências bibliográficas:
BERGSON, Henri. Matéria e Memória – Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2006. (Coleção Tópicos)
DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. Trad. Eloísa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1990.
LA SALVIA, André Luis. Introdução ao estudo dos regimes de imagens nos livros Cinema de Gilles Deleuze. 2006. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
Leia também a crítica de Dinah Cesare e o texto de Felipe Vidal sobre o processo de criação dramatúrgica de Louise Valentina.
Outros textos críticos e informações sobre apresentações no blog da peça:
 http://louisevalentina.wordpress.com/
http://www.questaodecritica.com.br/2010/02/a-sobrevivencia-do-tempo/

quarta-feira, 10 de março de 2010

RockAntygona- Barbara Heliodora

RockAntygona: Foco no militar empobrece tema, mas espetáculo é interessante e bem realizado

(OGlobo - 03/03/2010 05:00:09)

Faltou tragédia grega a esta Antígona

LUIS MELO e, ao fundo, Larissa Bracher: o ator, no papel de Creonte, está mais sacrificado pela concepção de direção de Guilherme Leme; a atriz tem uma figura digna e de bastante força

Barbara Heliodora

Ao realizar sua "RockAntygona" a partir não só de Sófocles como também de Brecht e, ao mesmo tempo, reduzir o elenco a três personagens, Guilherme Leme criou para si um problema de difícil solução: por um lado altera o texto, conduzindo-o para um debate sobre a guerra enfrentada por Tebas e o tema da obediência em termos militares, e por outro só deixa em cena os personagens especialmente construtivos do tema ligado ao conflito de obediência às leis dos deuses e às leis dos homens. O tom da encenação no Mezanino do Espaço Sesc procura unir as duas versões da história de Antígona, mas não consegue realmente cobrir a falta que faz a impecável unidade de ação de Sófocles, e toda a riqueza de pensamento nela contida e expressada também na parte final, abandonada, da tragédia grega. Proposto em nível militar, o tema fica menor, menos rico, menos profundo.

Trilha do Vulgue Tostoi ajuda no tom e na emoção da obra

A trilha sonora original, do Vulgue Tostoi (Marcello H. e Jr Tostoi) é forte e via de regra positiva para a criação do tom e da emoção da obra, porém nem mesmo assim dá para substituir os diálogos com outros personagens, cortados, que permitem melhor compreensão da trajetória do conflito básico.

A encenação de "RockAntygona" é despojada e bonita, com austera cenografia de Aurora dos Campos e figurinos corretos, mas não particularmente inspirados, de Tatiana Brescia, e boa iluminação de Tomás Ribas. A direção de Guilherme Leme opta por uma rigidez de comportamento nos personagens com clara intenção de criar o clima autoritário; a par da tensão dos personagens, as marcas buscam desenho um tanto geométrico, com o mesmo objetivo. Por outro lado, o texto é devidamente valorizado, dito com clareza e ênfase, mesmo que pecando pela pouca variedade.

As atuações estão condicionadas à concepção diretorial, sendo que o Creonte de Luis Melo é o que fica mais preso e sacrificado. Armando Babaioff (Hemon) executa a preocupação com o comportamento militar, mas mesmo assim consegue ter ao menos alguns momentos um pouco mais sensíveis, em sua defesa de Antígona. Larissa Bracher deveria ter um pouco mais de liberdade emocional, mesmo que sua defesa do irmão tenha base nas obrigações religiosas, e não apenas na afeição de irmã, mas, dentro do conceito da direção, se apresenta com uma figura digna e de bastante força.

"RockAntygona", mesmo com tais ressalvas, é um espetáculo interessante e bem realizado.

RockAntygona- Macksen Luiz

RockAntygona: tragédia grega versão heavy metal

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Não se trata de adaptação reducionista da tragédia de Sófocles, mas de intervenção sonora e visual que torna o desafio de Antígona diante do poder discricionário, uma construção cênica de musicalidade atritante. O rock que se junta ao nome da filha de Édipo não é apenas um apelo de título, mas incorporação do desejo de contemporaneidade que ecoa por sonoridades para além do teatro. A força milenar do texto se mantém inalterada na condensação do trágico no camerístico, no enxugamento da ação no que se propõe como reflexos do exercício de poder.

É à volta dele que giram os atos de Creonte e de onde emana a desobediência e o determinismo de Antígona. Nesta contracena, que expõe as razões de estado, ou da baixa política, encobrindo o mando como valor que se justifica por sua própria manutenção, é a atitude transgressora das leis injustas que inicia o esfacelamento da autoridade personalista. Deste conflito, opondo Antígona, decidida a cumprir os preceitos de enterrar o corpo do irmão, a Creonte, que decreta que se proíba a realização do ritual, a versão de conserva a integralidade trágica, ainda que procure outras ressonâncias.

Com rigor e depuramento

A concepção do diretor Guilherme Leme se reveste de visualidade originada de instalações plásticas. A música preenche este espaço como complemento ambiental, ruído que capta dissonâncias e projeta o barulho das palavras. A presença de um DJ, que controla o som e também é narrador, atualiza o coro. A interpretação do elenco se integra a esse quadro de plasticidade impositiva como figuras hieráticas, traços firmes de mural reflexivo. O rigor é o elemento que ressalta na encenação de Guilherme Leme, transmitindo depurament o na arquitetura cênica de filigranado detalhamento. Apesar da abordagem formal ser predominante, o diretor não permite que se transforma em mero exibicionismo do bem executado ou em frieza ascética. O espetáculo instiga a reflexão e aquece a emoção através dos recursos plásticos e musicais, num geometrismo de meios, não de fim.

O cenário de Aurora dos Campos imprime horizontalidade à cena, estabelecendo profundidades, planos e transparências dramáticas de requintado impacto. A iluminação de Tomás Ribas valoriza a cenografia com luminosidade vigorosa de poética beleza. O figurino de Tatiana Brescia talvez pudesse ser menos conotado para os atores, especialmente para Creonte, mas o despojamento da túnica vermelha de Antígona contrasta bem com as cores escuras da ambientação. A trilha sonora original de Marcello H. e Jr. Tostoi pulsa ao ritmo dramático da batida heavy, interferência precisa na sua contundência. Marcelo H., que manipula a mesa de som e informa sobre o desenvolvimento das cenas, tira partido da projeção da voz e da trilha como mais um ator no palco.

Armando Babaioff, mesmo com a discutível apresentação coreográfica de Hémon, demonstra segurança e sutileza para expor as mudanças por que passa o filho frente a inflexibilidade do pai. Larissa Bracher tem, como Antígona, interpretação madura que dosa a obstinação moral com consciência de saber o que está reservado à personagem. A atriz, de maneira despojada e seca, confere dignidade à sua atuação. Luis Melo, um Creonte que em sua cena inicial adquire involuntário (mas pertinente) perfil de alguns dos nossos políticos, confirma a sua autoridade e densidade como intérprete, prejudicado em parte pela condensação da tragédia que não permite que a passagem da tirania ao declínio só seja possível para o ator vivê-lo como um tempo de registro momentâneo.

. RockAntygona -Lionel Fischer


"RockAntygona"


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Ousada versão de obra-prima


Lionel Fischer


Antes de analisar o espetáculo em questão, estou optando por me deter em um texto que consta do belo programa criado por Victor Hugo Cecatto. Tal texto, ao que suponho de autoria de Guilherme Leme, diretor da montagem, expõe de forma pertinente as premissas que a nortearam. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de algumas palavras (ou frases curtas)estarem impressas em corpo bem maior que as demais, umas em branco, outras em vermelho - e aqui excluo os sobrenomes de alguns filósofos e estudiosos citados. Seria apenas uma decisão inventiva do programador visual? Ou quem sabe uma forma de ressaltar os conteúdos mais significativos?

Pois bem: renunciando às frases, das palavras do grupo "branco" constam Intolerância (duas vezes), Reações, Rebeldes, Cortantes, Reiventadas, Incessante, Indefesa, Arbitrária, Abusiva, Inspiram, Crença, Arrebatou, Jornada, Relendo, Insatisfação, Enfrentamento, Tempo, Crie e Manifesto. Já as vermelhas destacam Mudanças, Guitarra, Insatisfação, Lei, Imposição, Desobedece, Inspirando e Rompimento.

Isto posto, e antes que se tenha a impressão de que estou pretendendo criar uma espécie de quebra-cabeça, um jogo de possíveis correspondências entre o branco e o vermelho, gostaria apenas de ressaltar que todos os termos enfatizados, ainda que encarados isoladamente, têm estreita ligação com a essência da tragédia - a suposta exceção ficaria por conta de "guitarra", mas esta se insere com total propriedade no espetáculo.

Inspirada na tragédia "Antígona", de Sófocles, "RockAntygona" acaba de entrar em cartaz no Espaço Sesc, com direção assinada por Guilherme Leme e elenco formado por Luis Melo (Creonte), Larissa Bracher (Antygona), Armando Babaiof (Hémon) e Marcelo H, aqui denominado Mídia Eletrônica, que desempenha a função do Narrador.

Por tratar-se de obra por demais conhecida, não creio ser necessário resumir seu enredo. O primoritário é tentar compreender as razões que levaram Guilherme Leme a fazer uma redução tão drástica desta obra-prima - aparecem em cena apenas a protagonista Antígona, seu tio e governante Creonte e um dos filhos deste, Hémon, noivo de Antígona.

Partindo do pressuposto de que tal decisão não tenha sido tomada em função de baratear a produção, só nos resta supor que Guilherme Leme objetivou, através de uma síntese tão radical, demonstrar que a essência do pensamento do autor poderia ser materializada desta forma. E talvez inserí-lo visceralmente na contemporaneidade, ao valer-se de uma trilha sonora eletrônica que prioriza a inquietude, a agressividade e a urgência, assim como a quase que total impossibilidade de entendimento que caracteriza as relações humanas.

Trata-se apenas de uma hipótese e, como tal, sujeita a todos os enganos. Mas se algo ao menos parecido com o que acabamos de expor passou pela cabeça do encenador, só nos resta parabenizá-lo, dada a excelência do resultado obtido. Impondo à cena uma dinâmica angustiante e claustrofóbica, e apoiado na excelente performance dos intérpretes, Guilherme Leme oferece ao público uma versão capaz de gerar alguma polêmica, mas jamais merecedora do rótulo de "modernosa". E quem assim a encarar, certamente é porque cultiva uma das muitas palavras acima destacadas, como, por exemplo, a Intolerância.

No complemento da ficha técnica, destacamos com grande entusiasmo a belíssima trilha sonora de Vulgue Tostoi (Marcelo H. e Jr Tostoi), que enfatiza de forma contundente e exasperante os múltiplos climas emocionais em jogo, tornando-se quase que um personagem. A mesma excelência se faz presente na cenografia de Aurora dos Campos e na iluminação de Tomás Ribas, sendo corretos os figurinos de Tatiana Brescia.

ROCKANTYGONA - Inspirado na tragédia "Antígona", de Sófocles. Concepção e direção de Guilherme Leme. Com Luis Melo, Larissa Bracher, Armando Babaiof e Marcelo H. Espaço Sesc. Quinta e domingo, 20h. Sexta e sábado, 21h30.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Teatro- Retrospectiva 2008 - Macksen Luiz

* clique na imagem
(retrospectiva publicada no Jornal do Brasil, 25 de dezembro de 2008)

sábado, 6 de junho de 2009

. O estrangeiro - matéria

em breve

. O estrangeiro - Danielle Avila

Uma verdade ainda negativa

(foto de ensaio)



O estrangeiro, peça em cartaz no Mezanino do Espaço SESC, é uma adaptação de Morten Kirksov para o romance homônimo de Albert Camus, com tradução de Liane Lazoski. Em cena, Guilherme Leme, que assina a direção junto com Vera Holtz, conta a história de seu personagem, Mersault, na primeira pessoa. Mersault é, a princípio, um homem comum. Aos poucos, percebemos que algumas fronteiras entre o comum e o incomum se romperam e que o limite entre o espaço do indivíduo e o espaço da sociedade está sendo apresentado como algo bastante complexo.


Nos momentos iniciais da peça, antes que o ator comece a contar a sua história, o espaço cênico se mostra como um espaço de tensão. O cenário de Aurora dos Campos e a luz de Maneco Quinderé formam uma câmara de pressão, condensam uma atmosfera - mas o agente dessa pressão, dessa condensação, não é facilmente identificável. Com elementos mínimos, o cenário constrói a sua presença e se coloca como interlocutor para o discurso de Mersault. É como se a visualidade do espetáculo expressasse a força do que está fora do universo particular do personagem.


A cena reflete a clareza do pensamento de Mersault. Assim como a escrita do autor, a encenação é refinada e sedutora. A beleza que provoca uma aproximação contrasta com o conteúdo da fala do personagem, que pode provocar aversão. A atuação de Guilherme Leme dá a ver a trajetória do personagem com a mesma premissa de contrastes: ele articula suavidade e rudeza, num jogo de sobreposição das duas forças.


Parece que a encenação apenas procurou criar uma ambientação que focasse na subjetividade do personagem, na reflexão que se pode ter a partir das suas afirmações, de forma que a conquista mais interessante da montagem parece ser a reverberação das idéias em jogo no texto. Isso acontece na medida em que a encenação se coloca como agente daquele discurso, sem parcialidades, fazendo um convite ao ajuizamento. A peça faz pensar sobre Mersault.


Então, me vem ao pensamento que talvez Mersault seja um parente - um pouco distante, mas talvez parente - do Bartleby de Herman Melville. Em seu ensaio sobre Bartleby, Gilles Deleuze aponta que a novela de Melville forma uma linhagem subterrânea com outras de Kleist, Dostoievski, Kafka e Beckett. Arrisco sugerir que o texto de Camus também faça parte desse parentesco obscuro.  O "Tanto faz" que Mersault repete se aproxima do "I am not particular" do Bartleby. Há algo que Deleuze diz deste último que talvez sirva a Mersault: "É liso demais para que nele se possa pendurar uma particularidade qualquer." E ainda:"Petrificados por natureza e que preferem... absolutamente nenhuma vontade, um nada de vontade e uma vontade de nada (...). Só conseguem sobreviver tornando-se pedra, negando a vontade, e se santificam nessa suspensão." (DELEUZE, 1997:92)

Em O estrangeiro, vemos a jornada de Mersault nesse processo de santificação às avessas: ele descobre a sua verdade, "uma verdade ainda negativa", nas palavras de Camus, a sua verdade feita de "não", de uma recusa que não é indiferente, mas comprometida e internamente coerente. A recusa de Bartleby (sua verdade também negativa) vai ao cúmulo da passividade, enquanto a de Mersault se resume a um ato extremo e sua conseqüente condenação. Ambos, cada um a seu modo, subvertem a lógica do entorno com a recusa a compartilhar seus pressupostos. E assim complexificam o pensamento sobre a vida.


                                                      ***


Por fim, talvez caiba aqui um comentário sobre o fato de que o espetáculo foi dirigido por Vera Holtz, que nunca tinha trabalhado como diretora. Há bem pouco tempo, esteve em cartaz no Rio uma peça que também foi dirigida por uma atriz: Apropriação, primeira direção de Bel Garcia. A experiência artisticamente bem-sucedida destas peças parece sugerir que uma ocasional troca de funções pode operar deslocamentos nos pressupostos estéticos dos artistas que se propõem a tais mudanças, e que, talvez, sair do seu lugar seguro de expressão artística possa cavar novos canais para refinar a voz pessoal de cada um.


Referências bibliográficas:
DELEUZE, Gilles.
Crítica e clínica; tradução de Peter Pál Pelbart. - São Paulo: Ed. 34, 1997. (Coleção TRANS)
MELVILLE, Herman.
Bartleby, o escrivão - Uma história de Wall Street; tradução de Irene Hirsch. São Paulo: Cosac & Naify, 2205.


(crítica publicada na revista eletrônica questão de crítica publicada em 24 de fevereiro de 2009)

www.questaodecritica.com.br

. O estrangeiro - Lionel Fischer

Obra-prima em versão imperdível 


Lionel Fischer 


“A minha mãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”. Assim começa aquele que muitos consideram como o melhor romance de Albert Camus (1913-1960), “O estrangeiro”, que agora chega à cena (Espaço Sesc) com adaptação de Morten Kirkskov, tradução de Liane Lazoski, direção de Vera Holtz e Guilherme Leme, e interpretação deste último. 


De fato, trata-se de uma obra extraordinária, protagonizada por um homem (Meursault) apagado, modesto, que ama a vida nas suas facilidades fáceis, não sentindo nenhum dever para com a sociedade onde não tem qualquer papel, e tanto mais espontaneamente silencioso quanto é certo que pouco tem a dizer. Em resumo: ele é a materialização da simplicidade – ou da insignificância. Mas algo o distingue de todos: a sua inaptidão profunda para a mentira, o que lhe confere grandeza e, ao mesmo tempo, acarretará sua perda. 


A narrativa se apóia em três momentos. No primeiro, Mersault vela o cadáver da mãe, fuma, toma café; e no dia seguinte, não chora no enterro. No segundo, em um incidente para o qual não encontra explicação – e nem julga possível haver uma explicação seja para o incidente como também para muitas outras coisas – mata um árabe a tiros de revólver – já no primeiro disparo, o árabe tomba morto, mas Mersault lhe dá ainda mais quatro tiros. E finalmente, é julgado por seu crime e condenado à morte. 


E é justamente neste terceiro momento que reside o essencial. Na realidade, Mersault não é condenado exatamente por seu crime, mas por negar-se a se comportar de acordo com as normas vigentes, por recusar-se terminantemente a usar a máscara da hipocrisia e assim representar o papel de cidadão em sintonia com a sociedade em que vive. Em resumo: Mersault morre não por ter matado alguém, mas por não haver chorado no enterro de sua mãe, este sim um crime realmente intolerável... – qualquer sociedade consegue conviver razoavelmente com algumas diferenças, mas não com um “estrangeiro” aos seus valores essenciais. 


Apoiados em uma adaptação impecável, que consegue condensar em uma hora de espetáculo toda a densidade do romance, e em irretocável tradução, os diretores criaram uma montagem irrepreensível sob todos os pontos de vista, cabendo ressaltar a austeridade e secura dasmarcações, todas elas voltadas para explicitar o mais possível os principais conteúdos e idéias do autor. 


Com relação a Guilherme Leme, este exibe performance notável, alternando momentos de contenção (a maioria) com alguns poucos em que o personagem expõe sua perplexidade e revolta de forma mais incisiva. Trata-se, sem dúvida, de um trabalho de ator que merece ser aplaudido sem restrições, posto que construído a partir de escolhas plenas de inteligência e sensibilidade. 


No que concerne ao restante da equipe técnica, destacamos com entusiasmo a refinada iluminação de Maneco Quinderé, que através de alterações sutis consegue enfatizar todos os climas emocionais em jogo. Também merecem aplausos a cenografia de Aurora dos Campos, a trilha e música incidental de Marcelo H, a preparação vocal de Maria Silvia Siqueira Campos e a preparação corporal de Miwa Yanagizawa.


(crítca publicada no dia 15 de fevereiro de 2009)

www.lioner-fischer.blogspot.com

* foto de André Gardenberg

. Cuconovolândia - Quadrienal de Praga 2007

*clique na imagem
(matéria publicada na revista Espaço cenográfico 31º edição)
www.espacocenografico.com.br

. Eu que poderia ser eles - Aurora dos Campos


Já ela com mania de colecionar coisas dos outros, dos outros que já passaram.

A síntese do que ficou daqueles que já foram.

E que voltam a cada vez que ela abre o saco preto cheio de lixo rico.


 Norfolk, 26 de agosto de 1952.

Prezada nilcéia:

Há muito tempo penso em vocês com saudades e com intenção de fazer uma cartinha, porém como sou a secretaria do Nó, tenho sempre muita coisa a fazer e por isto fico em falta mesmo com os parentes e amigos queridos.

Naturalmente titia tem falado sobre nós, e vocês já estão mais ou menos ao par da nossa vida nos E.U.A...

Depois de muito viajar (o que aliás adorei) fomos mandados para cá. No princípio estranhei, mas agora já estou bem familiarizada com tudo e até falando inglês... 

A Sheila está muito gordinha, porém muito saudosa da Teté. Gosta mais do Brasil...

O Noisio está bem mais gordo, e com saúde graças a Deus.

Há uns 15 dias que está no mar; não é horrível? Já não suporto mais de saudades...

Tenho gostado daqui. A vida é facílima. A nossa casa é um amor, e tem todo conforto possível. É um prazer ir a cozinha, pois ela é linda! A peça mais importante de uma casa é esta.

Como vão vocês ai? E Princesa? Sempre com a lingüinha de fora? Quais as novidade do Rio? Hoje amanheci com "Home sick"...não deixa de ser triste estar longe do Brasil.

O comandante comprou um carro alinhadíssimo; é o segundo amor da vida dele... como recebe carinho o Chrysler!...

O frio já está se aproximando; infelizmente!

Domingo tivemos 12 graus... Pobres brasileiros..

Dizem que chega a fazer 25 graus abaixo de zero...

Talvez eu me transforme num gostoso "Ice cream".

Esta cidade é bem grande. Tem vários cinemas e um comércio formidável (é ai que fico tonta).

A base Naval é outra cidade de tão grande. O transito de  automóvel até impressiona de tão movimentado. Tem uns 8 ou 10 clubes, lojas, igrejas, correios, bares, cinemas, mercado etc, e tudo mais barato. Fica uns 10 ou 15 minutos de carro da nossa casa.

Norfolk tem boas praias. Uma bem alinhada que eles querem comparar com a nossa Copacabana; mas não é possível... Ela é maior, tem mais movimento, mas não tem beleza nem edifícios altos.

Bem Nilcéia vou terminar esperando que você me responda em seguida. Uma carta do Brasil é um verdadeiro prêmio pra mim. Um abraço no Ernani e para você muitas saudades da prima amiga.

Isis.

 

Hoje é dia 6 de agosto de 2008, ela está com quase 25 anos e mora com uma amiga da mesma idade. Está nublado no Rio, mas não faz calor e nem frio. Tem rádio com música clássica na sala, e lembranças de outras pessoas espalhadas pela casa. Ela anda descobrindo algumas coisas nesse ano que está morando sozinha, por exemplo: as comidas que elas mais compram é banana, granola e abobrinha. Curioso né?

Ela acabou de chegar de Norfolk, passou um tempo lá, talvez 15 minutos parece mais. Descobriu o carro Chrysler, que  já tinha visto em filmes. Gostou da parte da carta em que Ísis diz:"A nossa casa é um amor, e tem todo conforto possível. É um prazer ir a cozinha, pois ela é linda! A peça mais importante de uma casa é esta.." Isis parece muito próxima, mas foi a primeira vez que ela soube de sua existência e seu nome. Ela está fazendo Direção de arte de um comercial de cuscuz nordestino, e tem que montar uma cozinha que seja ambientada na década de 50, então deu para sentir um pouco do amor de Isis por sua cozinha e ela acha que isso vai ajudar.

Agora ela procura Norfolk no mapa, na internet, e pensa em Isis com um grande Atlas.

Acredita que Isis tenha em torno de 30 anos e que Sheila gordinha seja sua filha e Noisio, da marinha, seu marido. Pensa que eles vivem agora naquele tempo. Eles poderiam ser seus personagens, mas ela não quer criar nada além das informações da carta. 


* Achei essa carta junto com umas velharias que estavam na mesma casa onde conheci o cofre laranja (texto que está pubicado abaixo). Totalmente embriagada pela texto do Felipe, Ele precisa começar, escrevi esse texto falando um pouco dela (eu) e dela (ela) e de tantos outros "eles" que existiram em tantos momentos.